Um dos grandes nomes do pós-guerra no Japão, DAIDO MORIYAMA (1938)
fez parte da geração que explorou a relação da fotografia com a página
impressa. Integrante da lendária revista Provoke (1968-69) e consagrado
por inúmeros livros fotográficos em preto e branco, Moriyama flagrou
a cena artística japonesa e as transformações da vida rural e urbana
de seu país. Nesta série autobiográfica, intitulada Memórias de um cão
e publicada em 1983 na revista Asahi Camera, o fotógrafo revela o fascínio
pela cultura americana, pelas viagens de estrada, pelas experiências
de autoconhecimento e pela obra seminal de Jack Kerouac.
CAI A TARDE EM MANHATTAN, e enquanto contempla a impressionante multidão
de vultos negros que como uma torrente de água suja escorre aos borbotões
pela escura boca do metrô aberta na calçada, bem no centro da aridez de neon
da Times Square, um homem pensa em um outro homem, de quem acaba de se
despedir depois de juntos terem percorrido uma longa, longa estrada, e pensa em
seus muitos outros amigos, pensa ainda na extensão estonteante da “estrada já
percorrida” que, sinuosa e interminável, corta a imensidão do continente americano.
“Quando o sol se põe na América, eu me sento no destroçado e velho cais fluvial
e, contemplando o vasto céu de Nova Jersey, sinto todo o inacreditável volume de
terra bruta que ondula até a Costa Oeste, todas aquelas estradas seguindo em frente,
todas as pessoas sonhando nessa imensidão e, em Iowa, sei que a esta altura as
crianças estão chorando lá na terra onde deixam crianças chorar, e esta noite haverá
estrelas no céu […] e ninguém, mas ninguém mesmo sabe o que vai acontecer com
qualquer um a não ser a deprimente ruína do envelhecer, penso em Dean Moriarty,
penso até no velho Dean Moriarty, o pai que nunca encontramos, penso em Dean
Moriarty”, murmura Sal Paradise, protagonista do romance Pé na estrada, de Jack
Kerouac, o escritor errante, na última página do livro.
Li o romance Pé na estrada tempos atrás, numa época em que, mal chegado à segunda
metade da casa dos 20, sentia intenso prazer em disparar minha câmera com a rápida
sucessão de uma rajada de metralhadora. Fascinado pelos “olhos que viram a estrada”
do personagem principal Sal Paradise, apaixonei-me por seu modo de viver e decidi de
imediato conquistar o surrado Toyota de um amigo, pondo-me a percorrer as muitas
rotas que cortam o Japão. Foi nessa época que tive a chance de me deparar com uma
grande variedade de acontecimentos, pessoas e cidades, e foi também nesses dias
que aprendi a andar de carona em carros e caminhões. E de tanto manter os olhos
sempre fixos na superfície da estrada, qual um par de faróis, nisso me viciei e me
vi tanto física como espiritualmente incapaz de retornar a meu antigo cotidiano.
O entusiasmo juvenil que me levava a disparar a câmera a torto e a direito ajustou-se
perfeitamente ao ritmo da viagem no aspecto emocional e, trocando de parceiros o
tempo todo, continuei ensandecido estrada afora fotografando dia e noite sem parar.
Agora me pergunto se eu, que desde criança sempre fora tímido e introvertido,
não estava havia muito fascinado por essa espécie de vida e atividade: propenso a
vagar e a não gostar da escola, eu era solitário e retraído, condição que talvez tenha
naturalmente desenvolvido em mim a ânsia por um comportamento dessa natureza.
As rodovias, que propiciam o cruzamento de inúmeros pontos sobre suas retas,
e também as ruas, onde pipocam fenômenos de toda espécie, me aguardavam com
tantas descobertas e emoções que registrá-las todas seria impossível. Eu já não me
adaptava à minha casa, para onde, exausto, retornava como um trapo depois de
encadear diversos percursos de longa distância, e acabei preferindo a cama dura
de um motel à minha própria, ou o arroz ao curry e bifes à milanesa de drive-ins
à comida caseira de minha mulher. E antes que o apelo das ruas arrefecesse, eu me
apressava a outra vez pôr o pé na estrada. Sem nenhuma razão particular. A vontade
de ver o mar do Japão, por exemplo, já era suficiente. Depois de continuar nessa
vida por cerca de três anos, certos motivos me levaram a tirar o pé da estrada
e voltar para casa. E então comecei a me fechar em mim mesmo mais uma vez.
Enquanto corria estrada afora, com frequência me acontecia experimentar
indizível irritação contra o fato de me apegar irremediavelmente a tudo que,
após um brevíssimo encontro, voava para longe de mim. Em especial o perfil
de um rosto pálido de mulher que resvalou pelo canto do para-brisa em certo
entardecer e de pronto se dissipou numa esquina, ou ainda o olhar do garoto
em pé no meio da lavoura em pleno dia estão para sempre gravados em minha
retina de maneira vívida como as imagens de um filme a que assisti certa vez.
Quero manter num filme todas essas infindáveis coisas amadas que, apenas
vislumbradas, resvalam por mim e desaparecem e que, por mais que as fotografe,
escorrem quase todas como água por malhas de uma rede e se vão, restando-me
nas mãos apenas precários fragmentos de imagens que nada capturaram, algo
entre imagem residual e latente que submerge em meu íntimo compondo uma
grossa camada de sedimentos estratificados.
De fato, são incontáveis as imagens que nos fogem enquanto avançamos a
toda por uma sucessão infinita de cenários. A sensação de resvalo nos chega
vagamente no instante em que tais imagens passam por nós. E resta apenas uma
sensação acumulativa de tê-las perdido. Contudo, os incontáveis cenários que
me escaparam são capazes de se transformar num outro em meu íntimo e, certo
dia, ressurgir de maneira repentina. Transcendem tempo e espaço e renascem
como num sopro em meu consciente, completamente desvinculados da visão.
Por exemplo, numa esquina movimentada da cidade de Tóquio, na parede de um
bar quando a noite já vai alta ou no líquido revelador de um quarto escuro com
iluminação avermelhada.
Nos últimos tempos, e depois que comecei a publicar a série Memórias de um
cão, voltei a percorrer estradas. Não da maneira incessante como antes, mas, certas
noites, ao me ver sozinho, sinto uma insistente saudade daquela vida e me ponho a folhear um mapa rodoviário e a seguir com o olhar qualquer rota nela impressa.
A isso se alia o ímpeto de viajar e, desde o verão passado, venho revisitando as
estradas. E então a quase esquecida emoção de estar nelas renasce em mim sem
que eu disso me dê conta. A essa altura, os mais variados fragmentos de antigas
imagens vistas pelos caminhos aos poucos surgem de maneira mais definida,
compondo paisagens reais nessas viagens feitas sobre o papel dos mapas. É como
montar um quebra-cabeça: ao reunir fragmentos incertos, de súbito visualizo a
imagem inteira. Diante de meus olhos, a estrada emerge como uma longa reta
acinzentada que se estende a perder de vista e, para além dela, projetadas no
espaço em sucessivas visões, uma esbranquiçada cena de verão ao longo de uma
rota, campos e montanhas em vívidas cores de começo de outono, a cena sombria
de um estreito no rigor do inverno e finalmente a paisagem noturna de luzes se
acendendo numa cidade desconhecida. Ao perseguir as imagens na imaginação,
percebo o pulsar do arquipélago japonês em contínuas ocorrências e sinto
momentânea irritação. Pergunto-me então quem estaria onde e fazendo o quê
neste exato momento ou, ainda, o que acontece e o que estaria por acontecer.
Para mim, percorrer uma linha longa e cinzenta corresponde ao ato de ler
no mínimo algumas dezenas de livros de todos os tipos, ou quem sabe escrever.
Enquanto corro por uma rodovia disparando a câmera e decifrando o que lhe vai
nas margens, sou por vezes poeta, cientista, artista, filósofo ou mesmo um político.
E ao mobilizar todas as recordações para reagir ao fluxo de tempo e espaço, a
impressão de que algum dia encontrarei uma viçosa imagem regenerada me acomete
em ondas alternadas de esperança e excitação.
Jack Kerouac, o autor de Pé na estrada, diz na homenagem à obra Os americanos –
esta, uma coletânea de fotos feitas por seu amigo e fotógrafo Robert Frank – a respeito
das jukeboxes que repetidamente surgem na referida obra: “Jukebox é essencialmente
o esquife da América”. Tomo aqui de empréstimo sua alusão para também dizer
que os postos de gasolina automatizados que se multiplicam à beira das estradas
japonesas começam a me parecer verdadeiros cemitérios rodoviários. Em suas áreas
de alimentação – às quais chegamos altas horas, exaustos de percorrer um longo
caminho –, não se vê viva alma e, sob a ofuscante luz incandescente, as geladas
fileiras de astutas máquinas de venda automática estão envoltas numa atmosfera
sinistra que de algum modo nos lembra a morte. Por outro lado, chega-nos também
invariavelmente um período de total inação enquanto cobrimos longas distâncias.
Pode até ser definido como um momentâneo bolsão de ar pouco antes do amanhecer.
Acontece nos momentos em que a escuridão é mais densa e provoca a estranha
impressão de que o carro não está correndo, ele está, isso sim, sendo levado de
roldão por uma vala escura. Certo desconforto e apreensão reinam dentro do carro
enquanto, mudos, os companheiros de viagem fixam atentamente o breu externo,
cada qual imerso em seus próprios pensamentos. Visíveis são apenas a luz projetada
pelos faróis e a iluminação do painel de controle. Nessas ocasiões, sinto que bem no
fundo do ser humano, seus nervos e suas células, embora temerosos da natureza e da
civilização, estão em alguma medida procurando confrontá-las. Em outras palavras,
sou levado a imaginar se esse não seria o momento em que o homem de algum modo
entra em sintonia com a memória ancestral.
Logo o céu começa a clarear aos poucos no horizonte distante e a madrugada rompe
no espelho retrovisor. A música flui do toca-fitas, e todos os isqueiros são acionados
simultaneamente. A fumaça paira no ar, a animação retorna ao interior do carro e
todos se libertam de suas respectivas ansiedades. As manhãs nas rodovias são de um
azul transparente a perder de vista, mas em algumas horas sobre o asfalto eclodirá a
escaramuça diária que em tudo lembra uma batalha campal. A questão não
é “aonde iremos hoje”, mas sim “que acontecimentos nos aguardam hoje?”.
Sal Paradise, o personagem central de Pé na estrada, é o próprio autor da obra, Jack
Kerouac. Enquanto vagava pelo continente americano com o amigo Neal Cassady,
dizem que o escritor, em sua juventude, batia nas teclas de sua máquina de escrever
mastigando hambúrgueres e tortas de maçã ao som de suingues e bebop. E também
eu, nos meus velhos tempos, espiava pelo visor de minha máquina fotográfica
mastigando lámen e arroz ao curry ao som de melodias do passado e canções
populares enquanto percorria sem descanso o arquipélago japonês. Talvez se possa
dizer que ambos persistíamos em nossas jornadas de descobertas e conhecimento
tendo nossas próprias memórias como radar. Jack Kerouac nos legou Pé na estrada,
um poema épico de louvor à juventude. E também eu, embora sem nenhuma intenção
de estabelecer comparações, publiquei a coletânea de fotos O caçador (Karyūdo),
baseado em meus próprios “olhos que viram a estrada”.